«Os homens, em sua maioria, levam vidas de sereno desespero.» Thoreau. «Desespero organizado.» Bruce Lee.
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ânsia de paz e solidão entre as ruas da cidade
William Butler Yeats, "Lake Isle of Innisfree", 1888.
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The Lake Isle of Innisfree
I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made;
Nine bean rows will I have there, a hive for the honeybee,
And live alone in the bee-loud glade.
And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a-glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.
I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements gray,
I hear it in the deep heart's core.
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A Ilha do Lago de Innisfree
Ergo-me e vou agora, partirei para Innisfree,
E aí uma cabana edificarei, uma cabana de argila e canas:
Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia,
E solitário entre o rumor das abelhas viverei.
Alguma paz desfrutarei, porque como lenta gota é a paz,
Desprendendo-se dos véus da manhã até ao lugar onde o grilo canta;
Eis aí a meia-noite de esplendor, o meio-dia de fulgurante púrpura,
E uma plenitude de asas cantantes ao entardecer.
Ergo-me e vou agora, pois quer de noite, quer de dia,
Oiço as águas do lago, o seu murmúrio junto à costa;
Enquanto nas estradas, ou nos passeios cinzentos,
Oiço esse murmúrio no mais fundo do coração.
W. B. Yeats, Poemas, Assírio e Alvim, 1988.
uma mentira verdadeira
Luciano (Lucianus Samosatensis), Uma História Verídica.
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E foi assim que também eu, por vanglória, resolvi deixar à posteridade qualquer coisa do género, só para não ser o único a não beneficiar da faculdade de contar histórias fantásticas. E já que não tinha nada de verídico para narrar (na realidade, não me tinha sucedido nada digno de registo), virei-me para a mentira, mas uma mentira mais desculpável que a daqueles, porquanto numa coisa serei eu verdadeiro: ao confessar que minto. Desta forma, i. é, declarando que não digo nem uma ponta de verdade, creio ficar absolvido da acusação que porventura me façam. Escrevo, pois, sobre coisas que não testemunhei nem experimentei, e que não soube da boca doutrem; mais ainda: que não existem em absoluto e que, de qualquer forma, não são susceptíveis de ocorrer. Portanto, não deve o leitor dar o mínimo crédito às minhas histórias.
Ora bem: um dia, tendo partido das Colunas de Hércules, apontei ao oceano ocidental, navegando com vento favorável. Causa e objectivo da viagem: a curiosidade intelectual, o desejo de experimentar novidades e a vontade de saber como é o fim do oceano e que espécie de homens habitam do lado de lá.
Therefore, as I myself, thanks to my vanity, was eager to hand something down to posterity, that I might not be the only one excluded from the privileges of poetic licence, and as I had nothing true to tell, not having had any adventures of significance, I took to lying. But my lying is far more honest than theirs, for though I tell the truth in nothing else, I shall at least be truthful in saying that I am a liar. I think I can escape the censure of the world by my own admission that I am not telling a word of truth. Be it understood, then, that I am writing about things which I have neither seen nor had to do with nor learned from others - which, in fact, do not exist at all and, in the nature of things, cannot exist. Therefore my readers should on no account believe in them.
Once upon a time, setting out from the Pillars of Hercules and heading for the western ocean with a fair wind, I went a-voyaging. The motive and purpose of my journey lay in my intellectual activity and desire for adventure, and in my wish to find out what the end of the ocean was, and who the people were that lived on the other side.
διόπερ καὶ αὐτὸς ὑπὸ κενοδοξίας ἀπολιπεῖν τι σπουδάσας τοῖς μεθ᾿ ἡμᾶς, ἵνα μὴ μόνος ἄμοιρος ὦ τῆς ἐν τῷ μυθολογεῖν ἐλευθερίας, ἐπεὶ μηδὲν ἀληθὲς ἱστορεῖν εἶχονοὐδὲν γὰρ ἐπεπόνθειν ἀξιόλογονἐπὶ τὸ ψεῦδος ἐτραπόμην πολὺ τῶν ἄλλων εὐγνωμονέστερον· κἂν ἓν γὰρ δὴ τοῦτο ἀληθεύσω λέγων ὅτι ψεύδομαι. οὕτω δ᾿ ἄν μοι δοκῶ καὶ τὴν παρὰ τῶν ἄλλων κατηγορίαν ἐκφυγεῖν αὐτὸς ὁμολογῶν μηδὲν ἀληθὲς λέγειν. γράφω τοίνυν περὶ ὧν μήτε εἶδον μήτε ἔπαθον μήτε παρ᾿ ἄλλων ἐπυθόμην, ἔτι δὲ μήτε ὅλως ὄντων μήτε τὴν ἀρχὴν γενέσθαι δυναμένων. διὸ δεῖ τοὺς ἐντυγχάνοντας μηδαμῶς πιστεύειν αὐτοῖς.
Ὁρμηθεὶς γάρ ποτε ἀπὸ Ἡρακλείων στηλῶν καὶ ἀφεὶς εἰς τὸν ἑσπέριον ὠκεανὸν οὐρίῳ ἀνέμῳ τὸν πλοῦν ἐποιούμην. αἰτία δέ μοι τῆς ἀποδημίας καὶ ὑπόθεσις ἡ τῆς διανοίας περιεργία καὶ πραγμάτων καινῶν ἐπιθυμία καὶ τὸ βούλεσθαι μαθεῖν τί τὸ τέλος ἐστὶν τοῦ ὠκεανοῦ καὶ τίνες οἱ πέραν κατοικοῦντες ἄνθρωποι.
E foi assim que também eu, por vanglória, resolvi deixar à posteridade qualquer coisa do género, só para não ser o único a não beneficiar da faculdade de contar histórias fantásticas. E já que não tinha nada de verídico para narrar (na realidade, não me tinha sucedido nada digno de registo), virei-me para a mentira, mas uma mentira mais desculpável que a daqueles, porquanto numa coisa serei eu verdadeiro: ao confessar que minto. Desta forma, i. é, declarando que não digo nem uma ponta de verdade, creio ficar absolvido da acusação que porventura me façam. Escrevo, pois, sobre coisas que não testemunhei nem experimentei, e que não soube da boca doutrem; mais ainda: que não existem em absoluto e que, de qualquer forma, não são susceptíveis de ocorrer. Portanto, não deve o leitor dar o mínimo crédito às minhas histórias.
Ora bem: um dia, tendo partido das Colunas de Hércules, apontei ao oceano ocidental, navegando com vento favorável. Causa e objectivo da viagem: a curiosidade intelectual, o desejo de experimentar novidades e a vontade de saber como é o fim do oceano e que espécie de homens habitam do lado de lá.
Therefore, as I myself, thanks to my vanity, was eager to hand something down to posterity, that I might not be the only one excluded from the privileges of poetic licence, and as I had nothing true to tell, not having had any adventures of significance, I took to lying. But my lying is far more honest than theirs, for though I tell the truth in nothing else, I shall at least be truthful in saying that I am a liar. I think I can escape the censure of the world by my own admission that I am not telling a word of truth. Be it understood, then, that I am writing about things which I have neither seen nor had to do with nor learned from others - which, in fact, do not exist at all and, in the nature of things, cannot exist. Therefore my readers should on no account believe in them.
Once upon a time, setting out from the Pillars of Hercules and heading for the western ocean with a fair wind, I went a-voyaging. The motive and purpose of my journey lay in my intellectual activity and desire for adventure, and in my wish to find out what the end of the ocean was, and who the people were that lived on the other side.
διόπερ καὶ αὐτὸς ὑπὸ κενοδοξίας ἀπολιπεῖν τι σπουδάσας τοῖς μεθ᾿ ἡμᾶς, ἵνα μὴ μόνος ἄμοιρος ὦ τῆς ἐν τῷ μυθολογεῖν ἐλευθερίας, ἐπεὶ μηδὲν ἀληθὲς ἱστορεῖν εἶχονοὐδὲν γὰρ ἐπεπόνθειν ἀξιόλογονἐπὶ τὸ ψεῦδος ἐτραπόμην πολὺ τῶν ἄλλων εὐγνωμονέστερον· κἂν ἓν γὰρ δὴ τοῦτο ἀληθεύσω λέγων ὅτι ψεύδομαι. οὕτω δ᾿ ἄν μοι δοκῶ καὶ τὴν παρὰ τῶν ἄλλων κατηγορίαν ἐκφυγεῖν αὐτὸς ὁμολογῶν μηδὲν ἀληθὲς λέγειν. γράφω τοίνυν περὶ ὧν μήτε εἶδον μήτε ἔπαθον μήτε παρ᾿ ἄλλων ἐπυθόμην, ἔτι δὲ μήτε ὅλως ὄντων μήτε τὴν ἀρχὴν γενέσθαι δυναμένων. διὸ δεῖ τοὺς ἐντυγχάνοντας μηδαμῶς πιστεύειν αὐτοῖς.
Ὁρμηθεὶς γάρ ποτε ἀπὸ Ἡρακλείων στηλῶν καὶ ἀφεὶς εἰς τὸν ἑσπέριον ὠκεανὸν οὐρίῳ ἀνέμῳ τὸν πλοῦν ἐποιούμην. αἰτία δέ μοι τῆς ἀποδημίας καὶ ὑπόθεσις ἡ τῆς διανοίας περιεργία καὶ πραγμάτων καινῶν ἐπιθυμία καὶ τὸ βούλεσθαι μαθεῖν τί τὸ τέλος ἐστὶν τοῦ ὠκεανοῦ καὶ τίνες οἱ πέραν κατοικοῦντες ἄνθρωποι.
construindo os alicerces
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Com a minha experiência aprendi pelo menos isto: se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras. Há-de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer em redor e dentro dela; ou então as leis velhas hão-de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há-de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres. À medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão-de parecer-lhe menos complexas, a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão esse vosso trabalho; porque eles estão onde deviam estar. Agora, por baixo, colocai os alicerces.
I learned this, at least, by my experiment; that if one advances confidently in the direction of his dreams, and endeavors to live the life which he has imagined, he will meet with a success unexpected in common hours. He will put some things behind, will pass an invisible boundary; new, universal, and more liberal laws will begin to establish themselves around and within him; or the old laws be expanded, and interpreted in his favor in a more liberal sense, and he will live with the license of a higher order of beings. In proportion as he simplifies his life, the laws of the universe will appear less complex, and solitude will not be solitude, nor poverty poverty, nor weakness weakness. If you have built castles in the air, your work need not be lost; that is where they should be. Now put the foundations under them.
nenhum nome
Luigi Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil.
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Nenhum nome. Nenhuma lembrança, hoje do nome de ontem; nem amanhã do nome de hoje. Se o nome é a coisa; se um nome é em nós o conceito de todas as coisas colocadas fora de nós; e se sem nome não se tem o conceito e a coisa fica em nós como cega, indistinta e indefinida; pois bem, que cada um grave este nome que usei entre os homens, qual epitáfio fúnebre, na fronte da imagem com que lhe apareci, e que a deixe em paz e que não se fale mais a seu respeito. Um nome nada é mais que isso: epitáfio fúnebre. Condiz bem com os mortos. Com os que que concluíram. Eu estou vivo e não concluo. A vida não conclui. E a vida nada sabe de nomes. Esta árvore, trémula pulsação de folhas novas. Sou esta árvore. Árvore, nuvem; Amanhã, livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Todo fora de mim, vagabundo.
Nessun nome. Nessun ricordo oggi del nome di jeri; del nome d'oggi, domani. Se il nome è la cosa; se un nome è in noi il concetto d'ogni cosa posta fuori di noi; e senza il nome non si ha il concetto, e la cosa resta in noi come cieca, non distinta e non definita; ebbene, questo che portai tra gli uomini ciascuno lo incida, epigrafe funeraria, sulla fronte di quella immagine con cui gli apparvi, e la lasci in pace e non ne parli più. Non è altro che questo, epigrafe funeria, un nome. Conviene ai morti. A chi ha concluso. Io sono vivo e non concludo. La vita non conclude. E non sa di nomi, la vita. Quest'albero, respiro trèmulo di foglie nuove. Sono quest'albero. Albero, nuvola; domani libro o vento: il libro che leggo, il vento che bevo. Tutto fuori, vagabondo.
No memory today of yesterday’s name; of today’s name, tomorrow. If the name is the thing; if a name in us is the concept of every thing placed outside of us; and without a name you don’t have the concept, and the thing remains in us as if blind, indistinct and undefined: well then, let each carve this name that I bore among men, a funeral epigraph, on the brow of that image in which I appeared to him, and then leave it in peace, and let there be no more talk about it. It is fitting for the dead. For those who have concluded. I am alive and I do not conclude. Life does not conclude. And life knows nothing of names. This tree, tremulous pulse of new leaves. I am this tree. Tree, cloud; tomorrow book or wind: the book I read, the wind I drink. All outside, wandering.
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Nenhum nome. Nenhuma lembrança, hoje do nome de ontem; nem amanhã do nome de hoje. Se o nome é a coisa; se um nome é em nós o conceito de todas as coisas colocadas fora de nós; e se sem nome não se tem o conceito e a coisa fica em nós como cega, indistinta e indefinida; pois bem, que cada um grave este nome que usei entre os homens, qual epitáfio fúnebre, na fronte da imagem com que lhe apareci, e que a deixe em paz e que não se fale mais a seu respeito. Um nome nada é mais que isso: epitáfio fúnebre. Condiz bem com os mortos. Com os que que concluíram. Eu estou vivo e não concluo. A vida não conclui. E a vida nada sabe de nomes. Esta árvore, trémula pulsação de folhas novas. Sou esta árvore. Árvore, nuvem; Amanhã, livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Todo fora de mim, vagabundo.
Nessun nome. Nessun ricordo oggi del nome di jeri; del nome d'oggi, domani. Se il nome è la cosa; se un nome è in noi il concetto d'ogni cosa posta fuori di noi; e senza il nome non si ha il concetto, e la cosa resta in noi come cieca, non distinta e non definita; ebbene, questo che portai tra gli uomini ciascuno lo incida, epigrafe funeraria, sulla fronte di quella immagine con cui gli apparvi, e la lasci in pace e non ne parli più. Non è altro che questo, epigrafe funeria, un nome. Conviene ai morti. A chi ha concluso. Io sono vivo e non concludo. La vita non conclude. E non sa di nomi, la vita. Quest'albero, respiro trèmulo di foglie nuove. Sono quest'albero. Albero, nuvola; domani libro o vento: il libro che leggo, il vento che bevo. Tutto fuori, vagabondo.
No memory today of yesterday’s name; of today’s name, tomorrow. If the name is the thing; if a name in us is the concept of every thing placed outside of us; and without a name you don’t have the concept, and the thing remains in us as if blind, indistinct and undefined: well then, let each carve this name that I bore among men, a funeral epigraph, on the brow of that image in which I appeared to him, and then leave it in peace, and let there be no more talk about it. It is fitting for the dead. For those who have concluded. I am alive and I do not conclude. Life does not conclude. And life knows nothing of names. This tree, tremulous pulse of new leaves. I am this tree. Tree, cloud; tomorrow book or wind: the book I read, the wind I drink. All outside, wandering.
horas pálidas e azuis
Rainer Maria Rilke, Primeiros Poemas : Advento (1898)
(pref., selec. e trad. de Paulo Quintela)
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Para que me arrancais das minhas horas pálidas
E azuis, para o enredado brilho
Dos círculos rodopiantes?
Não gosto já de ver vossa loucura.
Quero, como criança doente num quarto,
Sozinho, com secreto sorriso, baixinho,
Baixinho - construir dias e sonhos.
Was rißt ihr aus meinen blassen, blauen
Stunden mich in der wirbelnden Kreise
wirres Geflimmer?
Ich mag nicht mehr euren Wahnsinn schauen.
Ich will wie ein Kind im Krankenzimmer
einsam, mit heimlichem Lächeln, leise,Stunden mich in der wirbelnden Kreise
wirres Geflimmer?
Ich mag nicht mehr euren Wahnsinn schauen.
Ich will wie ein Kind im Krankenzimmer
leise - Tage und Träume bauen.
elogio da sombra
Junichiro Tanizaki, Elogio da Sombra (In Praise of Shadows), 1933.
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De certeza que todos os países do mundo procuraram encontrar a concordância de cores entre as iguarias, a loiça e até mesmo as paredes; ainda assim, a cozinha japonesa, se for servida num local demasiado iluminado, em loiça predominantemente branca, perde metado do seu atractivo. A sopa de miso vermelho, por exemplo, que todas as manhãs consumimos: se repararem um pouco na sua cor, compreenderão facilmente que foi inventada nas casas sombrias de antigamente. Um dia, convidado para uma reunião de chá, aconteceu apresentarem-me miso. E nessa sopa lodosa, cor de argila, que sempre consumira sem lhe prestar atenção, descobri, de súbito, sob a luminosidade difusa das velas, ao vê-la estagnar no fundo da taça negra lacada, uma verdadeira profundidade e uma cor das mais apetecíveis.
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In the cuisine of any country, efforts no doubt are made to have the food harmonize with the tableware and the walls; but with Japanese food, a brightly lighted room and shining tableware cut the appetite in half. The dark miso soup that we eat every morning is one dish from the dimly lit houses of the past. I was once invited to a tea ceremony where miso was served; and when I saw the muddy, claylike color, quiet in a black lacquer bowl beneath the faint light of a candle, this soup that I usually take without a second thought seemed somehow to acquire a real depth, and to become infinitely more appetizing as well. Much of the same can be said of soy sauce.
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De certeza que todos os países do mundo procuraram encontrar a concordância de cores entre as iguarias, a loiça e até mesmo as paredes; ainda assim, a cozinha japonesa, se for servida num local demasiado iluminado, em loiça predominantemente branca, perde metado do seu atractivo. A sopa de miso vermelho, por exemplo, que todas as manhãs consumimos: se repararem um pouco na sua cor, compreenderão facilmente que foi inventada nas casas sombrias de antigamente. Um dia, convidado para uma reunião de chá, aconteceu apresentarem-me miso. E nessa sopa lodosa, cor de argila, que sempre consumira sem lhe prestar atenção, descobri, de súbito, sob a luminosidade difusa das velas, ao vê-la estagnar no fundo da taça negra lacada, uma verdadeira profundidade e uma cor das mais apetecíveis.
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In the cuisine of any country, efforts no doubt are made to have the food harmonize with the tableware and the walls; but with Japanese food, a brightly lighted room and shining tableware cut the appetite in half. The dark miso soup that we eat every morning is one dish from the dimly lit houses of the past. I was once invited to a tea ceremony where miso was served; and when I saw the muddy, claylike color, quiet in a black lacquer bowl beneath the faint light of a candle, this soup that I usually take without a second thought seemed somehow to acquire a real depth, and to become infinitely more appetizing as well. Much of the same can be said of soy sauce.
impermanência
Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo.
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Se imaginássemos a história da Terra, com os seus 4500 milhões de anos comprimidos num dia normal de 24 horas, a vida começaria muito cedo, por volta das quatro horas da madrugada, com o aparecimento dos primeiros organismos unicelulares simples, mas depois não avança mais durante as 16 horas seguintes. Só quase às 20.30, depois de terem passado cinco sextos do dia, é que o planeta tem alguma coisa concreta para mostrar ao universo, uma fina camada de irrequietos micróbios. Depois, finalmente, aparecem as primeiras plantas marinhas, seguidas, 20 minutos mais tarde, das primeiras alforrecas e da enigmática fauna ediacarana [...]. Pouco antes das 22.00, começam a surgir as plantas em terra. Pouco tempo depois, a menos de duas horas do fim do dia, surgem os primeiros seres terrestres. Graças a uns dez minutos de clima ameno, às 22.24 a Terra está coberta de grandes florestas carboníferas cujos resíduos nos fornecem todo o nosso carvão, e manifestam os primeiros insetos voadores. Os dinossauros aparecem em cena, caminhando pesadamente, pouco antes das 23.00 [...]. Aos 21 minutos para a meia-noite desaparecem e começa a era dos mamíferos. Os humanos surgem um minuto e 17 segundos antes da meia-noite. Nesta escala, a totalidade da nossa existência não seria mais do que alguns segundos, e a duração de uma única vida humana apenas um instante. [...] Talvez uma forma mais eficaz de compreender até que ponto somos recentes neste quadro com 4,5 biliões de anos, seja abrindo os braços ao máximo e imaginando que essa distância corresponde a toda a história da Terra. Nessa escala, segundo John McPhee em Basin and Range, a distância entre as pontas dos dedos de uma mão e o pulso da outra é o período pré-câmbrico. A totalidade da vida complexa cabe numa só mão, e "numa só passagem com uma lima de unhas podíamos erradicar toda a história humana". Felizmente, esse momento ainda não aconteceu, mas há boas hipóteses de vir a acontecer. Não pretendo lançar uma nota lúgubre neste ponto, mas o facto é que a vida na Terra tem uma outra qualidade muito pertinente: extingue-se. Com bastante frequência. Quando pensamos em todos os esforços que as espécies fazem para se reunir e preservar, é notável a facilidade com que se desmantelam e morrem. E quanto mais complexas se tornam, mais depressa parecem extinguir-se. O que talvez possa explicar a razão pela qual há tanta vida com tão poucas ambições.
sê o que és
José Ortega y Gasset, O que é a Filosofia?
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«Queremos uma filosofia que seja
filosofia e nada mais, que aceite o seu destino, sem o seu esplendor e a sua
miséria, e não torça os olhos, invejosa, querendo para si as virtudes
cognoscitivas que outras ciências possuem, como é a exactidão da verdade
matemática ou a comprovação sensível e o praticismo da verdade física. Não foi
casual que no último século fosse o filósofo tão infiel à sua condição. Foi característico desses tempos no Ocidente não aceitar
o Destino, querer ser o que não se era. Por isso foi uma época
constitutivamente revolucionária. Em sentido último, 'espírito revolucionário'
significa não somente anseio de melhorar - coisa que é sempre excelente e nobre
-, mas crer que se pode ser sem limites o que não se é, o que radicalmente não
se é, que basta pensar numa ordem do mundo ou da sociedade que parecem óptimas
para que devamos realizá-las, não reparando que o mundo e a sociedade têm uma
estrutura essencial imutável, a qual limita a realização dos nossos desejos e
dá um carácter de frivolidade a todo o reformismo que não conte com ela. O
espírito revolucionário que tenta utopicamente fazer que as coisas sejam o que
nunca poderiam ser nem têm razão para ser, é preciso que seja substituído pelo
grande princípio ético que Píndaro liricamente apregoava e diz, sem mais,
assim: "Chega a ser o que és."»
não mais humano
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"O que, pensei, quer ele dizer com 'sociedade'? O plural de 'seres humanos'? Onde estava a substância dessa coisa designada por 'sociedade'? Passei a vida inteira a achar que a sociedade devia ser, certamente, algo poderoso, duro e severo, mas ouvir o Horiki falar fez com que as palavras 'Com sociedade queres dizer tu mesmo?' chegassem à ponta da minha língua. Contudo, contive-me de modo a não enr
aivecê-lo."O que, pensei, quer ele dizer com 'sociedade'? O plural de 'seres humanos'? Onde estava a substância dessa coisa designada por 'sociedade'? Passei a vida inteira a achar que a sociedade devia ser, certamente, algo poderoso, duro e severo, mas ouvir o Horiki falar fez com que as palavras 'Com sociedade queres dizer tu mesmo?' chegassem à ponta da minha língua. Contudo, contive-me de modo a não enr
'A sociedade não vai tolerar isso.'
Não é a sociedade. És tu quem não o tolera - não é?
'Se o fizeres, a sociedade far-te-á sofrer por isso.'
Não é a sociedade. És tu, não é?
'Antes que te apercebas, serás ostracizado pela sociedade.'
Não é a sociedade. Vais ser tu a ostracizar-me, não vais?
Palavras, palavras de toda a espécie passaram a voar pela minha cabeça. 'Conhece os teus próprios medos, as tuas patifarias, astúcias e bruxarias!'. O que eu disse, contudo, enquanto limpava o suor do meu rosto com o lenço, foi meramente: 'Puseste-me com suores frios!', e sorri.
Daí em diante passei a deter, quase como uma convicção filosófica, a seguinte crença: O que é a sociedade a não ser um indivíduo?"
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"What, I wondered, did he mean by 'society'? The plural of 'human beings'? Where was the substance of this thing called 'society'? I had spent my whole life thinkng that society must certainly be something powerful, harsh and severe, but to hear Horiki talk made the words 'Don’t you mean yourself?' come to the tip of my tongue. But I held the words back, reluctant to anger him.
‘Society won’t stand for it.’
‘It’s not society. You’re the one who won’t stand for it - right?’
‘If you do such a thing society will make you suffer for it’
‘It’s not society. It’s you, isn’t it?’
‘Before you know it, you’ll be ostracized by society.’
‘It’s not society. You’re going to do the ostracizing, aren’t you?’
Words, words of every kind went flitting through my head. 'Know thy particular fearsomeness, thy knavery, cunning and witchcraft!' What I said, however, as I wiped the perspiration from my face with a handkerchief was merely, 'You’ve put me in a cold sweat!', I smiled.
From then on, however, I came to hold, almost as a philosophical conviction, the belief: What is society but an individual?"
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